Israel é um país super seco,e no dia do museu do Holocausto esqueci de tomar água, e acho que gastei toda a água do meu corpo chorando, então no fim do dia eu estava quase que totalmente desidratada. A noite teve um mega evento do Taglit com grupos de vários países e shows e discurso presencial do primeiro ministro de Israel no qual todos chamam carinhosamente de Bibi. Logo para todos os isreaelenses que eu falava meu nome eles perguntavam: Bibi como o primeiro ministro? Pois é... eu sou xará de apelido do primeiro ministro de Israel. Mas eu, totalmente desidratada, fiquei sentada o evento inteiro me sentindo super quente e me entupindo de água. Lição aprendida!
Algumas coisas sobre os dias anteriores que esqueci de contar. A tenda beduína no meio do deserto era bem próxima a uma base da aeronáutica. Durante toda a noite ouvimos caças sobrevoando nossas cabeças, e de vez em quando eles soltavam umas bolas meio de fogo que parece que servem para despistar misseis, essa parte era treinamento, claro, mas o resto é real pois eles ficam sempre de olho em tudo o que se passa. Foi um dos primeiros momentos que sentimos o conflito de forma real.
No dia seguinte seguimos para o norte. Fomos num lugar lindo Rosh Hanikrá, na fronteira com o Líbano, umas grutas lindas com um mar num tom de azul maravilhoso. Vimos a base exatamente na fronteira, e tinha uma placa dizendo que era área militar e não podia tirar fotos, mas saiu um soldade de lá de dentro todo sorridente e começou a posar para as fotos, muito engraçado.
Continuamos o dia em Tzfat, a cidade da Kabala. Nos levaram num spa feito para o Micvê, um ritual de purificação que se resume num banho em águas naturais. Falando em linhas gerais é um ritual feito 1 semana depois que a mulher parou de menstruar, ela se limpa profundamente e depois entra nessa piscina de água natural e tem que afundar completamente pelo menos uma vez, e é um momento íntimo no qual elas rezam, refletem sobre a vida e principalmente sobre o relacionamento com o marido. Lá conversamos muito com as mulheres sobre a relação do judaísmo com o casamento, sexo, relacionamento. Foi super interessante! Eles tem uma visão bem bonita do que é o amor e o casamento. Depois dessa aula fomos andar pela cidade e aprendemos que na cidade da Kabala o povo é super ortodoxo e retrógrado ao ponto de olhar feio pra gente, xingar se alguma mulher estiver com alguma parte do corpo aparecendo, e até ser contra o estado de Israel pois esse não segue as leis ortodóxas, extremistas até dizer chega! E isso que eu achei que lá só teria judeu maluco beleza da Kabala, que é super interessante diga-se de passagem, e claro que seus seguidores não são como os extremistas que vivem na cidade.
A noite fomos para um Kibutz aonde iríamos dormir. Jantamos no grande refeitório e nos acomodamos nos quartos em casinhas fofas. Depois tivemos uma atividade com uma palestrante animadíssima que falou em 1h a história musical de Israel, e nos ensinou danças típicas e modernas de lá. Foi uma animação só! Rolamos de rir e dançamos de nos acabar! Tinham mais dois grupos do taglit nessa noite lá, um de São Paulo e um de São Francisco, e eles tinham instrumentos e ficamos a noite tocando e cantando e bebendo vinho e socializando e rindo. Foi uma das noites mais gostosas e divertidas!
No dia seguinte acordamos super atrasados e enressacados, parecíamos zumbis no refeitório do café da manhã. Os outros dois grupos do Taglit eram da idade normal do programa (de 18 a 26 anos) e a gente ficou brincando na noite anterior que iríamos ensinar a eles como se faz uma festa. Dito e feito festejamos mais do que eles. Mas no dia seguinte... a garotada arrasou com os véios! Eles lá flanando pelo café da manhã todos sorridentes e nós atrasados descabelados de óculos escuros, enjoados e quase morrendo! rs
Subimos as colinas do Golan. A subida é super tensa pois a estrada é estreita e com curvas muito acentuadas e super íngreme. Golan são colinas que ficam bem na fronteira entre Israel e a Síria, era território Sírio até a guerra dos 6 dias em 1967, quando Israel conquistou o local. Durante a subida pode-se ver ainda tanques de guerra, bunkers, carros e caminhões explodidos e abandonados, e cercas com placas: cuidado!campo minado! Um cenário que eu jamais achei que fosse ver na vida, tão real e tão próximo. Me deu um aperto no peito e uma vontade de chorar. No alto da colina visitamos um antigo bunker, e lá de cima víamos a fronteira com a Síria. De repente escutamos o som de uma bomba! Todos levaram um puta susto e estremeceram na base. A Síria está em guerra civil, e nosso guia explicou que de vez em quando os rebeldes ou os soldados soltam bombas, e ouvimos mais uma segunda bomba antes de descer. Depois disso ficamos em silêncio por alguns minutos. A realidade dos conflitos no Oriente Médio ia a cada dia ficando mais real.
Saindo do bunker fomos para um parque ainda nas colinas do Golan, e lá fizemos um momento de despedida dos soldados que estavam viajando com a gente. Discursos, brincadeiras, jogos e muitas gargalhadas. O lugar era lindo, um campo cheio de pedras, parecia que estava andando as margens de um rio que você tem que ficar pulando de pedra em pedra, só que era na terra firme.
A noite fomos para Jerusalém e era nossa noite livre para uma baladinha na cidade! Fomos num bar super underground e na mesa do lado um judeu super tradicional bebendo uma cerveja, coisas que só acontecem na terra santa!
Sexta-feira acordamos e fomos para o quarteirão judaico na cidade velha e, é claro, para o Muro das Lamentações! Para se entrar na área do muro tem que se passar por um forte esquema de segurança, quase que como no aeroporto, bolsas e pessoas no raio x. Escrevi meu bilhetinho, bem como haviam me dito para fazer, com meus desejos e agradecimentos e fui lá depositar num buraquinho do muro. Encostei a cabeça as mãos no muro e mentalizei bem forte desejos e coisas positivas. Foi um momento super forte! Nunca achei que fosse sentir essa energia toda nesse local. Chorei. Eu e todo mundo que estava lá comigo e todo mundo que estava lá.
Voltamos para hotel no final da tarde para o jantar de Shabat. Mulheres acendendo velas e fazendo reza. Depois todos se cumprimentam com um caloroso abraço e Shalom shabat! Como não podia deixar de ser, compramos vinhos e ficamos lá curtindo a vida a doidado bem como manda a tradição. rs
No dia seguinte era Shabat então os motoristas não trabalham (quase ninguém trabalha, diga-se de passagem, principalmente em Jerusalém. Geralmente no shabat quem trabalha nos hotéis e lugares que não fecham são os árabes ou outros não judeus), sendo assim saímos a pé pela cidade! Visitamos o parlamento, um parque lindo, um museu, e terminamos o dia novamente no muro. Antes de descermos para o muro, paramos no alto de uma escada com vista para o Muro e para a Mesquita, que fica atrás do muro e tem a cúpula mais linda do mundo toda de ouro, e a lua estava bem atrás da mesquita gigante e linda. Nosso guia explicando alguma coisa que não estava conseguindo prestar atenção pois o cenário era belíssimo, pensando como não poderia ficar mais bonito, e ficou! De repente a mesquita começa seu canto reza nos alto falantes. São 4 torres com alto falantes e quando é hora da reza eles rezam no alto falante e fica parecendo música, e cada hora o som vem de uma torre, e as vezes elas se misturam aumentando a musicalidade. É lindo demais! E a noite não poderia ficar mais mágica!
Descemos para o Muro e fizemos o ritual de fim de shabat lá. Foi bonito. Essa era a última noite do grupo em Israel. Fomos para o hotel e ficamos lá unidos conversando bebendo vinho, emotivos. O grande grupo naturalmente durante a viagem se separou em 2. A minha parte do grupo ficou unida do início ao fim. Dessa minha parte do grupo 8 tive uma conexão fortíssima, um amor mesmo, sabe? Daquele tipo de amizade difícil de encontrar.
No dia seguinte, último dia, todos acordaram meio calados. Tivemos uma palestra muito interessante no hotel sobre o conflito Israel x Palestina que nos deu uma noção maior e melhor da questão.
Seguimos então para Tel Aviv. Praça Rabin, Memorial de Yiszhak Rabin, onde o primeiro ministro foi assassinado. Depois fomos na sala onde foi proclamada a independência de Israel pelo então primeiro ministro Ben Gurion. E finalizamos o dia com um jantar e uma conversa analise do programa, onde todos ficaram muito emotivos, alguns choraram, outros apenas sentiram
Foi uma viagem mágica. Há alguns anos que queria ir ao Taglit mas já tinha passado da idade, até que ano passado soube desse grupo especial de 27 a 30 e me inscrevi correndo. Já tinha perdido as esperanças de ir e fiquei muito feliz quando rolou essa nova oportunidade. Mas em momento algum achei que essa viagem fosse ser de fato muito incrível. Viagem em grupo grande, tipo excursão, 40 pessoas, achava que não teria ninguém como eu, achava que eu seria a menos judia de todos e tava até envergonhadinha de não saber muito da cultura e das tradições. Mas... a viagem superou todas as minhas expectativas! Conheci pessoas maravilhosas, lugares lindos e incríveis e fortes, passei por muitas experiências e uma montanha russa de sensações e sentimentos e reflexões e realidade. Vi um país que vive num conflito sério e infindável, onde jovens muito jovens já vão para o exército e andam extremamente armados, onde soldados e armas nas ruas é completamente normal. Aprendi uma cultura nova, a cultura em que meu avô foi criado mas que nunca passou para os netos. Aprendi sobre religião, povo, política. Pensei mil vezes sobre o meu avô e como eu queria contar tudo aquilo que estava vivendo para ele, afinal por causa dele que eu estava lá. Me senti sim mais conectada com minhas raízes judaicas, e principalmente com meu avô. Vivi muita coisa interessante, muita coisa forte. E descobri coisas incríveis que levarei para a vida. Viagens são sempre sensacionais, amo viajar, mas essa terá sempre um lugar especial no meu coração.