terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Sobre Aviões, Girafas Elefantes Leões e Seres Humanos

Quando eu soube pela minha amiga Sheila que um grupo iria para o Quênia fazer trabalho voluntário, uma inquietação tomou conta de mim. Eu não tinha exatamente todo o dinheiro para ir, mas sabia que tinha que ir. Juntei, pedi, organizei e, num misto de ansiedade, medo e vontade, disse sim. Logo depois eu quase me arrependi, achei que não iria dar conta, mas respirei fundo, repensei e fui. E fui.

Éramos 13: 5 homens 8 mulheres, de 21 a 31 anos, diversas profissões, diversos tipos. Cada um estava ali por um motivo bem próprio, mas nenhum de nós sabia o que nos esperava.
Nos encontramos no aeroporto às 21horas do dia 17 de dezembro. Eu conhecia apenas a Sheila e mais uma menina que tinha ido comigo para Israel. Rolaram alguns encontros antes da viagem, mas foram todos em São Paulo e eu não pude ir a nenhum. Fizemos check inn e lá fomos nós. Depois de 7horas de viagem, das quais dormi o tempo inteiro sobre o efeito do meu querido comprimido Frontal pré voo, paramos no Togo onde embarcaram mais pessoas no avião. Mais 5 horas e descemos na Etiópia, onde tiraram nossa temperatura antes de entrarmos no aeroporto. Duas horas de espera e o Frontal já não fazia mais efeito, então... cerveja e comida etíope, mais um voo de quase 2horas, com vinho, conversas filosóficas e questões sobre o que faríamos nessa jornada louca. E finalmente chegamos a Nairóbi, Quênia, onde novamente tiraram nossas temperaturas e tivemos que entregar um pequeno questionário sobre nossa saúde. Ebola free: podemos adentrar o país.
Jimmy, o responsável pelo nosso voluntariado, nos buscou no aeroporto. Já era madrugada do dia 19 e ele nos levou para o apartamento que ficaríamos hospedados em Nairóbi. 3 quartos e 1 banheiro para 13 pessoas. Rolou um momento de pânico. Arrumamos uma mala menor, tomamos banho e seguimos mais 5 horas para o Safari. Acho que passamos uns 2 dias só nos transportando e comendo. O Safari era no Massai Mara National Reserve, um parque gigante com todos os animais da savana vivendo ali em seu habitat natural, na divisa entre Quênia e Tanzânia.

Chegamos ao hotel, que tinha umas tendas estilo militar para dormimos, mas todas com banheiro dentro e super confortáveis. Organizamos a divisão dos quartos e fomos correndo para o parque ver os bichos. Nossos motoristas eram incríveis, entendiam tudo dos animais e plantas, e tinham olhos de lince, pois viam os animais mesmo que eles estivessem camuflados. Conseguiram, no primeiro dia, achar leões e uma cheeta comendo um gnu, cena surreal e incrível, que já deu a noção de como funciona a cadeia alimentar. À noite, exaustos, apenas dormimos, cobertos pela rede de mosquito.
Segundo dia, foi safari o dia inteiro. Os motoristas têm um rádio à moda antiga no carro e vão falando entre si, para ver quem achou que bicho e onde. É impressionante como eles conhecem o parque e se localizam no meio daquela savana. Leões, elefantes, girafas, rinocerontes... Ficamos cara a cara com um búfalo, que ensaiou um ataque ao nosso carro; batemos o carro numa árvore onde estava um leopardo que tinha acabado de se alimentar de uma zebra e a perna desta balançava, presa num galho (medo); vimos um leão correr atrás de um pumba enquanto nosso motorista estava fora do carro e ele voltou correndo amedrontado; vimos leões fazendo amor numa lindíssima cena; demos maçã para um babuíno; andamos na beira de um rio cheio de hipopótamos e crocodilos, na fronteira com a Tanzânia . Em um dado momento nossos motoristas pararam o carro, tiraram uma grande toalha e pequenas lunch boxes para fazermos um piquenique embaixo de uma árvore com zebras passando atrás. Foi mágico!

Fim de tarde, visitamos a tribo dos Massai. Eles nos contaram sobre sua história e tradições, dançaram, cantaram. Num dado momento, separaram nosso grupo em duplas e cada dupla, acompanhada por um massai, adentrou uma casa. Lá conversarmos mais intimamente sobre o funcionamento da Tribo. Foi um momento um pouco estranho. A porta da casa é baixa e o interior é bem escuro. O primeiro quarto é para um pequeno bezerro, pois as vacas tem grande valor entre os Massai, quanto mais vacas, mais ricos. Eles inclusive trocam mulheres por vacas, então, se o rapaz quer casar, ele "compra" sua esposa por 10 vacas. Continuamos por um pequeno corredor escuro, muito escuro, no qual fiquei com um pouco de medo e segurei na mão da minha dupla. Chegamos numa sala/quarto/cozinha onde estava um senhor bem velho, cheio de colares e alargadores, e uma moça com um neném. O nosso guia nos explicou o funcionamento das casas, que têm apenas uma mínima janela para não entrar insetos, um pequeno fogareiro, e até um canto que eles denominam como quarto de hóspedes, onde fomos gentilmente convidados a dormir. O rapaz falou e falou; a moça com a criança e o velho, os verdadeiros moradores da casa, ficavam lá, só nos olhando. E nós nos sentindo observadores demais. Até que, numa hora, nosso guia massai me perguntou sobre minhas tatuagens, como eram feitas, se doía, e me mostrou a dele. Travamos uma bela conversa sobre o assunto, cada um contando como são feitas as tatuagens e como são escolhidos os desenhos em suas respectivas culturas, e ali senti uma bonita troca. Foi um momento de certo alívio. Logo após isso, o rapaz nos ofereceu insistentemente alguns objetos de artesanatos para comprarmos e, dessa forma, ajudarmos na construção da escola. Eu e minha dupla entramos numa superconversa sobre o assunto, pois estávamos nos sentindo um pouco intimidados. Acabamos comprando duas peças, pelas quais nos apaixonamos, e saímos da casa para encontrarmos o grupo, que estava se esbaldando em compras na feirinha da tribo. Os Massai nos levaram a pé até nosso hotel e, no caminho, um deles bem novo foi chutando uma garrafa pet. De repente, um jogo de futebol estava armado! Dois times, um de nós e um massai em cada time, e os poucos que passavam pela pequena estrada no meio da savana paravam para assistir ao jogo. Futebol faz sucesso com os moços da tribo! Foi uma cena linda, com o por do sol ao fundo e uma nuvem densa e negra se aproximando. Nos despedimos deles calorosamente. Eles nos ofereceram a cerveja que fabricam artesanalmente, mas ninguém teve coragem de beber.

À noite, fizeram uma fogueira no hotel e sentamos em volta cantando e conversando, nós 13, um dos nossos motoristas e um rapaz que trabalha no hotel. Ensinamos músicas para eles e eles para nós. Cantamos em português, em swahili e em inglês. E eles conheciam e cantavam perfeitamente Michel Teló! Rimos muito. Quando fomos dormir, o gerador já estava desligado e caminhamos para os quarto num breu total, apenas com a luz da lua e das lanternas dos celulares, que não eram muito potentes.
Acordamos e decidimos fazer um safari de barco, que nossos motoristas tinham indicado. Saímos cedo para dar tempo, pois o safari fica perto de Nairóbi, a 5h de carro de onde estávamos. Pegamos a estrada e, de repente, ouvimos muitas mensagens no rádio do carro. O motorista, com uma expressão um pouco preocupada, parou no acostamento, onde já estava parado o nosso outro carro. Os motoristas, tensos, falavam em swahili entre si, e nós tentando entender o que se passava no meio daquela estrada deserta. E eis o que se passava: um elefante matou um Massai, os Massai se revoltaram e fecharam as estradas, pedindo algo para o governo, que nenhum de nós compreendeu muito bem o que era, talvez pelo sotaque queniano, que a gente ainda não entendia perfeitamente. Perguntamos se não podíamos quebrar o bloqueio. Os motoristas foram categóricos, dizendo que os Massai ficavam agressivos e nunca se sabe o que podem fazer quando ficam assim. Medo. O que fazer? Voltar para o hotel e esperar passar? Não. Eles já tinham acionado pelo rádio um amigo, que veio de moto para nos resgatar e nos guiar por estradas alternativas. Seguimos então a motoca por caminhos no meio do nada, num agreste queniano, paisagens vastas, muita poeira, e a viagem que duraria apenas 5 horas, durou umas 7. Perdemos o safari no barco.


Paramos para almoçar e, na porta do restaurante, conhecemos um grupo de crianças fofas. A única menina do grupo logo me chamou atenção. Os meninos nos olhavam com um sorriso bobo no rosto, e ela não. Olhava séria, observadora e atenta. E também um pouco desconfiada. Linda. De vestido amarelo e rosa. Eu acenei com a mão, ela só olhou; eu acenei de novo, ela continuou olhando; eu insisti e fiz uma brincadeira; ela sorriu e veio até mim. Olhou fixo para minha tatuagem e quis tocar; eu disse vai em frente e ela fez carinho nos meus pássaros e na minha árvore; e eu fiz carinho no rosto dela e ela no meu braço, e eu no rosto dela, e assim travamos uma bonita e sincera comunicação, sem falarmos uma palavra. Fomos embora, mas fiquei marcada por aquele olhar desconfiado e profundo da menina linda de cabelos raspados. E chegamos em Nairóbi.

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